A leitura deste artigo pretende estimular o pensamento e a reflexão. Comecemos por estas primeiras perguntas: o que é a sexualidade? Que significado lhe damos no dia a dia? Como a vivemos? E como a vivemos nas diferentes fases do nosso desenvolvimento? Como se pode relacionar com a saúde mental? E o que é a saúde mental?
Vamos começar por uma visão da sexualidade no plural – sexualidades – como um espectro de possibilidades, vivências e significados. Como uma dimensão presente ao longo de todo o ciclo de vida, e como algo que não existe em si, mas em nós, "que acontece no nosso corpo, na nossa mente, na nossa casa, na comunidade, na cultura e até no tempo".
Definida inúmeras vezes nas páginas dos dicionários e por pessoas de todo o mundo, passou por metamorfoses – transformando-se e evoluindo – a par das mudanças históricas e sociais, impulsionando muitas delas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a sexualidade como "um aspeto central do ser humano ao longo da vida; abrange o sexo, as identidades e os papéis de género, a orientação sexual, o erotismo, o prazer, a intimidade e a reprodução. A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relações. Embora a sexualidade possa incluir todas estas dimensões, nem todas são sempre vividas ou expressas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais".

Assim, não deve ser considerada isoladamente, mas no contexto dos múltiplos domínios e vivências que fazem parte integrante de cada pessoa. Por sua vez, a saúde mental, também vista como um contínuo, implica - mais do que a simples ausência de doença - "um estado de bem-estar em que cada um de nós consegue lidar com as adversidades da vida, concretizar as próprias capacidades, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a comunidade".
Onde se cruzam (a saúde mental e a sexualidade) nas nossas vidas?
Partindo desta perspetiva, será certamente mais desafiante compreender a relação entre ambas – saúde mental e sexualidade –, uma vez que está em constante (re)construção. A influência é mútua, embora seja importante considerá-la à luz dos fatores descritos anteriormente, dentro das idiossincrasias de cada pessoa e da forma como lhe damos significado.
Reconhecer a diversidade de formas e vivências da sexualidade contribui para o sentimento global de bem-estar e saúde das pessoas. No entanto, o que acontece quando há estigma e discriminação? Quando a diversidade não é reconhecida e é negado o direito à liberdade de pensamento e de expressão da própria sexualidade? O que acontece quando a privacidade, a autonomia e a integridade corporal não são respeitadas? Por exemplo, a pressão para o desempenho sexual e os discursos punitivos sobre determinadas fantasias, preferências, práticas, orientações e identidades de género; a presença de camadas de discriminação social, que ditam opressão e repressão; e a violação da privacidade e a divulgação de informação relacionada com a nossa sexualidade, têm impacto na nossa vida, na nossa saúde mental e no nosso bem-estar.
E quando enfrentamos uma determinada condição física ou mental (por exemplo, depressão, perturbações do comportamento alimentar), isso também pode afetar a(s) vivência(s) da sexualidade? Quando o nosso bem-estar está comprometido? Quando estamos a lidar com experiências emocionais negativas (por exemplo, stress ou padrões negativos de ansiedade), sentimentos de solidão, baixa autoestima ou vazio emocional? Quantos de nós já sentimos que estas dimensões comprometeram a nossa vivência da sexualidade? Ou, por outro lado, algumas podem até intensificá-la como forma de minimizar ou lidar com a "negatividade" que estamos a viver?
Quer tenhamos estas experiências uma vez ou com regularidade, podem ter impacto na nossa saúde mental, na nossa vivência da sexualidade e na forma como pensamos e sentimos sobre nós próprios, sobre os outros e sobre o mundo. Um apoio especializado, como o dos profissionais da Ivory Therapy, pode oferecer uma base segura para compreender e refletir sobre a sexualidade e outras dimensões da nossa existência.
Até aqui, apresentámos uma visão negativa desta relação. No entanto, também se sabe que, por exemplo, ter uma identidade sexual positiva, experiências sexuais positivas e relações íntimas saudáveis, consentidas e satisfatórias contribui de forma positiva para a nossa saúde mental e qualidade de vida. Além disso, as pessoas que referem maior satisfação com a vida sexual tendem a apresentar melhores níveis de saúde física (por exemplo, menos doenças crónicas e cardiovasculares) e de saúde mental (por exemplo, menos ansiedade e depressão).

Por outro lado, a definição de saúde sexual como “um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado com a sexualidade” e não apenas a ausência de doença ou disfunção, realça a expressão da sexualidade como um elemento fundamental do bem-estar e da qualidade de vida que todas as pessoas têm o direito de procurar, sem discriminação, coerção ou violência.
Começámos esta narrativa com várias perguntas. Não para lhes dar resposta, mas para suscitar a reflexão sobre uma relação há muito debatida, com um espectro de significados e vivências que tornam uma visão única demasiado geral ou redutora. É um convite a refletir sobre os direitos sexuais, a desconstruir o estigma e o preconceito que a rodeiam (ou algumas das dimensões dela), através de uma educação para a sexualidade inclusiva e respeitadora desta diversidade de vivências, centrada não só na redução de riscos, mas também na promoção dos aspetos positivos da saúde sexual.