Hoje, vamos explorar a saúde mental através de uma lente sistémica, para perceber como a família influencia o bem-estar mental. Com isto em mente, começamos por analisar o papel que a família tem no nosso desenvolvimento enquanto pessoas.
A família é o nosso primeiro contacto com o mundo exterior. Os membros da família dão-nos as bases que moldam a nossa exploração do mundo e das relações humanas—incluindo, muitas vezes, a exploração de nós próprios—através das interações com as figuras parentais, com quem aprendemos orientações morais e sociais e guiões de interação e de comportamento. É no contexto familiar que aprendemos se o mundo é seguro e como nos podemos mover nele.
A teoria da vinculação mostra que estas interações nos primeiros anos moldam significativamente o nosso desenvolvimento. Segundo Bowlby, as crianças precisam de manter a proximidade e de criar laços fortes com quem cuida delas, e a relação que se estabelece entre a criança e o cuidador afeta de diferentes formas o desenvolvimento e a estabilidade emocional.

Assim, vemos que os diferentes estilos de vinculação têm impactos variados nas pessoas. Por exemplo, quando se estabelece uma vinculação segura, a criança sente confiança de que a figura parental vai estar presente, mesmo que fique ansiosa quando essa pessoa se afasta; quando o cuidador regressa, restabelece rapidamente o contacto. Isto cria uma criança que se sente segura o suficiente para explorar o mundo, sabendo que tem sempre um porto seguro à espera.
Este laço entre a criança e a figura parental é a primeira lição sobre como o mundo funciona e sobre as diferentes formas de interação—é também uma lição sobre amor, segurança e conforto. Assim, o papel da família (na saúde mental, na saúde física e noutros contextos) começa cedo e acompanha-nos ao longo da vida. No entanto, é importante lembrar que há espaço para mudanças e aprendizagens nas dinâmicas familiares ao longo das várias fases do ciclo de vida.
Desta forma, nestes primeiros anos, aprendemos (ou não) a usar os recursos externos e internos de que dispomos (por exemplo, autorregulação, resiliência) na relação connosco e com os outros. Ao longo da vida, a família continua a ser muito relevante, com impacto em várias áreas, e vai evoluindo connosco à medida que crescemos. Família e saúde mental são dois conceitos interligados que se influenciam mutuamente. Conseguimos perceber a complexidade das relações familiares e da saúde mental quando olhamos para determinados ramos da psicologia, que sublinham que a família pode ter um papel tanto no apoio ao bem-estar como, por vezes, na manutenção da doença ou do sofrimento mental.
Reconhecer o valor da família no processo terapêutico é necessário para compreender melhor como deve e/ou pode ser integrada neste processo. Embora nem sempre seja possível garantir que todos os membros da família queiram participar, envolvê-los tanto quanto possível é importante para alcançar melhores resultados.

Ser uma figura de apoio na família significa também lembrar que todas as perturbações mentais e por uso de substâncias são tratáveis, estar aberto a conversas compassivas sobre saúde mental e assumir o papel de falar com as pessoas de quem gostamos para criar espaços de ligação sem julgamentos. Os familiares podem dar o apoio necessário para que floresçam comportamentos de procura de cuidados, como começar a terapia.
Quando há dificuldade em criar estes espaços de ligação ou em iniciar conversas sobre saúde mental, podemos usar recursos que ajudem a abordar estes temas (por exemplo, filmes ou produtos da Ivory Therapy com mensagens importantes). Há vários momentos do dia a dia que podem servir para começar uma conversa!
Embora seja um papel essencial, não podemos esquecer que também é, por vezes, cansativo e pode trazer sentimentos de solidão e stress, por isso é importante lembrar que o autocuidado é necessário e que devemos, assim, manter rotinas de autocuidado para o nosso próprio bem-estar mental.
Por isso, os grupos de apoio ou o apoio psicológico individual de profissionais, como os da Ivory Therapy, podem ajudar a desenvolver recursos para lidar com este papel de cuidador.
Em suma, a família prepara-nos para o mundo, moldando o nosso desenvolvimento desde a infância e influenciando a nossa saúde mental ao longo da vida. Cuidar de nós e de quem nos rodeia é essencial, porque, numa visão sistémica, todos nos influenciamos uns aos outros—e cuidar é sempre uma lição de amor e de segurança.