Começamos este artigo com um exemplo de uma série de 2025 que explora vários temas relacionados com a comunidade queer, em particular com homens gays e bissexuais – Heated Rivalry (alerta de spoiler).
Na série, através do Scott e do Kip, conseguimos observar o impacto que esconder a orientação sexual tem na vida das pessoas LGBTQIA+. Quando estas personagens começam a relação, o Kip é abertamente gay e vive a vida sem se esconder, enquanto o Scott não saiu do armário e não tenciona fazê-lo tão cedo, porque tem medo de perder a carreira e as pessoas que fazem parte da vida dele. Por isso, só vivem a dinâmica da relação em casa do Scott.
Ao longo do episódio, vemos o Kip a viver no apartamento do Scott e a ficar cada vez mais isolado, tendo de mentir ao pai sobre onde está (porque não pode revelar com quem está a namorar), passando menos tempo com as pessoas de quem gosta e sem poder estar com o Scott em espaços públicos (mesmo fingindo que não são um casal), como se fosse uma representação de tudo aquilo que o “armário” nos tira.

O que nos ensinam o Kip e o Scott sobre o impacto que esconder a orientação sexual tem na saúde mental das pessoas LGBTQIA+?
A série oferece-nos uma representação do “armário”: transmite-nos uma sensação de isolamento, preocupação, desonestidade e até alguma escuridão. Esta imagem não está nada longe da realidade.
No que diz respeito à saúde mental, as pessoas LGBTQIA+ que sentem que têm de esconder uma parte de quem são podem viver:
· Questões relacionadas com a autocrítica;
· Hipervigilância e automonitorização;
· Preocupação cognitiva e ruminação;
· Entre outros.
Estas preocupações e fatores de stress específicos da comunidade LGBTQIA+ (por exemplo, expectativas de estigma, ocultação da identidade) são conhecidos como stress minoritário. Neste sentido, o tempo prolongado no “armário” pode, assim, ser descrito como uma forma duradoura de stress, ligada a contextos estruturais de opressão, com efeitos a longo prazo na saúde mental. E, quando não “saímos” dele, estamos a ignorar uma fase importante do desenvolvimento da identidade e da aceitação do eu como um todo.

E o que pode apoiar uma pessoa LGBTQIA+ a aceitar a orientação sexual e a reduzir a necessidade de esconder uma parte de quem é?
No caso de Heated Rivalry, o Scott Hunter tem medo de passar pelo processo de coming out sobretudo porque teme perder a equipa, onde estão os amigos e da qual faz parte há muitos anos – são a família que lhe resta.
A rede social que construímos é extremamente valiosa, e ter o apoio dela em questões que nos tornam mais vulneráveis é, naturalmente, importante. Por isso, este processo de deixar o armário para trás é mais fácil e confortável quando existe uma sensação de segurança e de apoio por parte das pessoas que importam a quem o está a viver.
Enquanto familiares e amigos, podemos deixar claro que aceitamos e apoiamos a comunidade LGBTQIA+ e os direitos dela através de diferentes ações no dia a dia:
· Através de conversas sobre o tema;
· Mostrando abertura e curiosidade genuína quando as pessoas nos falam da comunidade;
· Participando em marchas e eventos que apoiam a comunidade;
· Aprendendo mais sobre o tema;
· Consumindo conteúdos de entretenimento que incluam temas LGBTQIA+;
· Estando disponíveis para ser família escolhida – caso a pessoa seja rejeitada pela família de origem;
· Entre outros.
Enquanto pessoa que procura construir uma rede de apoio e ganhar força para passar pelo processo de “sair do armário”, pode ser importante:
· Perceber a quem gostarias de confiar esta informação em primeiro lugar;
· Pensar se há alguém a quem possas recorrer em caso de rejeição;
· Pensar se seria possível iniciar um processo de acompanhamento psicológico, para ajudar no desenvolvimento da identidade, no processo de coming out, na ansiedade ou na depressão. Este acompanhamento psicológico deve responder às necessidades identificadas, por isso devem escolher-se profissionais que se sintam à vontade para abordar estes temas! Na Ivory Therapy, há pessoas que são tão psicólogas como responsáveis e gentis, e que estão disponíveis para prestar estes serviços.

O que podemos retirar deste artigo?
A comunidade LGBTQIA+ enfrenta obstáculos e fatores de stress muito específicos, com um impacto significativo na saúde mental (por exemplo, ansiedade, isolamento, depressão), como podemos ver na série Heated Rivalry através do Scott e do Kip.
Na série, o Kip tem amigos que o apoiam e defendem os interesses dele, enquanto o Scott parece mais isolado, em parte porque acredita que vai ser completamente rejeitado pela equipa se assumir que é gay. Representam, assim, duas partes do mesmo processo.
Enquanto pessoas que se preocupam com quem as rodeia, devemos normalizar a existência de pessoas para além da heteronormatividade, e podemos participar em espaços da comunidade, falar e ouvir com curiosidade e interesse genuíno sobre temas relacionados com a comunidade e comprometer-nos a contribuir para a proteção das pessoas de quem gostamos – o que pode incluir sugerir o contacto com profissionais de Psicologia (como os da Ivory Therapy) para um apoio mais especializado e técnico.
Por fim, vale a pena lembrar que amor é amor – e que a única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor.