Como já é tradição, começamos com uma reflexão. Costumamos pensar no que estamos a sentir quando comemos? Num dia normal, que refeições fazemos? Do que são feitas, em geral? O que sentimos quando comemos certos alimentos? O que comemos quando sentimos certas emoções? Se fizermos este exercício durante alguns dias, vamos conseguir estabelecer ligações entre a comida e as emoções.
Nutrientes para a mente
Pensemos juntos - o nosso cérebro, o motor do nosso corpo, trabalha arduamente 24 horas por dia, 7 dias por semana, mesmo quando estamos a dormir, por isso precisa de um fornecimento constante de combustível. E este motor é topo de gama; por isso, embora existam muitos tipos de combustível no mercado, precisa e merece o produto da mais alta qualidade.
Sem nos perdermos na neurologia, a verdade é que o cérebro usa sistematicamente vitaminas e minerais – termos que todos conhecemos, certo? São muito usados quando falamos de alimentação, por isso vamos direto ao assunto – a alimentação tem impacto no funcionamento do cérebro:
-
os ácidos gordos estimulam o desempenho cognitivo e reforçam o sistema imunitário;
-
os hidratos de carbono garantem que o corpo tem a energia de que precisa;
-
as vitaminas ajudam a preservar a memória (vitamina B) e têm um efeito antioxidante (vitamina E).
Tal como alguns alimentos nutrem a nossa mente, outros podem ter um impacto menos positivo, como os ultraprocessados (por exemplo, refrigerantes), a fast food, a carne vermelha, o álcool e a cafeína, o que não significa que tenham de ser eliminados da nossa alimentação, mas sim que devem ser consumidos com moderação. Ora, é aqui que a coisa se complica, porque a verdade é que estes são normalmente os alimentos que mais nos apetecem (haverá alguém no mundo a quem, por vezes, só apeteça comer brócolos?).
O cérebro explica – por exemplo, os hidratos de carbono aceleram a produção de serotonina, um neurotransmissor responsável pela sensação de prazer que um pedaço de chocolate desencadeia. A questão é que se trata de hidratos de carbono de absorção rápida, e o que acontece quando os comemos é a criação de picos de glicose no sangue, que sobem depressa e descem de forma igualmente abrupta; resultado – fome pouco depois e, provavelmente, pouca energia. A serotonina e a dopamina são as estrelas quando falamos de alimentação e bem-estar mental.
Em suma, o equilíbrio é sempre a chave - uma alimentação composta por quantidades equilibradas de cada um dos alimentos referidos acima, com predominância dos primeiros, é um fator de proteção da saúde e de prevenção da doença, tanto física como mental.

Nutrientes para o humor?
Já conseguimos perceber que uma alimentação equilibrada apoia a saúde mental. E que associação pode existir com as perturbações mentais? Uma alimentação rica em ultraprocessados, com pouca variedade nutricional e poucos micronutrientes, parece estar associada ao agravamento dos sintomas depressivos. De facto, a dieta ocidental, que inclui grandes quantidades de produtos processados, está associada a um maior risco de problemas de saúde mental. Pelo contrário, vários estudos indicam que a dieta mediterrânica, que inclui legumes, peixe, carnes magras, cereais integrais e gorduras saudáveis (por exemplo, frutos secos), tem um impacto positivo na redução dos sintomas depressivos.
“Somos o que comemos.” Ou melhor: comemos o que sentimos? Por outro lado, quando falamos de humor, não podemos ignorar a chamada fome emocional. Quem já sentiu necessidade de encontrar conforto na comida num momento de ansiedade certamente não foi buscar um prato de brócolos. Nestes casos, o conforto encontra-se de preferência em alimentos de absorção rápida, muito saborosos mas pobres em nutrientes. A dificuldade em gerir as emoções pode levar ao uso desta estratégia.
Nutrientes para a autoestima?
Se alguém nos perguntasse: “Quem já se sentiu culpado depois de comer um determinado alimento, levante o braço”, de quantos auditórios precisaríamos? A gratificação imediata que um alimento proporciona é muitas vezes acompanhada de um sentimento posterior de culpa e de uma sensação de fracasso que afetam a imagem corporal que apresentamos e a autoestima que construímos. Podem também surgir pensamentos como “perdido por um, perdido por mil”, ou recorremos a mecanismos compensatórios, como restringir-nos no dia seguinte, comendo muito pouco ou aumentando o exercício físico. O que acontece? O ciclo continua. Aqui vemos a ligação muito forte entre a alimentação e a saúde mental.
A verdade é que a comida devia ser a nossa melhor amiga; no entanto, a cultura da dieta e os ideais de beleza fazem-nos sentir que é uma das nossas piores aliadas. Quando fazemos dietas extremas e começamos a consumir menos calorias do que precisamos, o corpo desencadeia uma série de reações para voltar ao equilíbrio, e é por isso que, em geral, sentimos fadiga a seguir. Com a restrição calórica, sentimos fome, sentimos menos saciedade e a comida parece cada vez mais apetecível. Quando nos privamos de um determinado alimento, ele torna-se ainda mais tentador. O extremo pode levar a perturbações do comportamento alimentar.
Podemos precisar de encontrar novas formas de nos relacionarmos com a comida – ter a capacidade de sentir e compreender os sinais internos de fome e de saciedade, comer por razões físicas e não emocionais, e sem alimentos proibidos. E só isto dava um artigo inteiro.

Queremos nutrir o corpo e a mente
É na variedade das refeições que podemos encontrar uma alimentação saudável, com efeitos no corpo e na mente. Já escrevemos no artigo “Quais são os sinais de excesso de trabalho?” sobre a forma como isto se reflete no ritmo do dia a dia e como, muitas vezes, nem paramos para comer.
Neste artigo, queremos falar do termo dieta enquanto padrão daquilo que comemos regularmente, centrado numa ingestão equilibrada de nutrientes para a saúde, e não enquanto abordagem temporária e restritiva com o objetivo de atingir metas de peso específicas. Como vimos, ter uma alimentação saudável para uma boa saúde mental pode não corresponder exatamente ao que estamos habituados a ouvir.
Reconhecer padrões entre a comida e as emoções e quebrar hábitos alimentares é desafiante, mas ninguém tem de o fazer sozinho. Os profissionais da Ivory Therapy podem ajudar a adquirir diferentes estratégias de regulação emocional e a compreender as mudanças que podem ser necessárias para uma melhor saúde física e mental, adaptadas a cada pessoa, sem sacrifícios e sem culpa.
Sentir os benefícios de uma alimentação mais equilibrada é algo gradual, através de escolhas diárias cujo impacto se acumula ao longo do tempo. A alimentação não é, certamente, a cura para todas as questões de saúde mental, mas é um passo na direção certa – nutrimos o corpo, a mente, o humor e a autoestima.
